domingo, 12 de março de 2017

fotossíntese

há um poema acerca de idas ao casino e passar noites em quartos de hotel que ficou por escrever
- como perdemos dinheiro por entre sons estridentes
e como manchei de água os lençóis luxuosos com os meus cabelos encharcados -
entretanto cresceu em mim um novo motivo
- a tua pele de seda em contacto com a minha face
e como te inspirei e sustive a respiração até me sentir a sufocar -
e no entanto custa-me escrever um poema
- dói-me tanto, tanto,
corrói-me por dentro -
já não tenho palavras para descrever o que vai sucedendo
- já não sei como dizer que me aconteces sempre de forma diferente
sem que o diga da mesma maneira que sempre disse -
os meus poemas tornaram-se raízes mortas
- que regas sempre com o teu toque,
mas que acabam por nunca sair da minha terra -
e com todo o esforço que faço para que brotem
- guardando delicadamente todas as palavras mais especiais
(aroma, sauna, nódoa negra, espelho) -
só os enterro mais em mim
- onde o sol nunca chega,
e contudo o solo seca -

de todas as vezes que te toco escrevo um verso
daí nunca querer tirar as mãos das linhas que sobressaem nos teus braços
às vezes penso em abdicar das palavras
e talvez seja por isso que elas já me descartaram há muito
e penso em como poderia continuar a semear-me em ti
- sem demoras, sem tensões, sem esforço -
talvez a hera que há em mim pegasse no teu corpo
e me fizesse subir ao estatuto que me tornaria Hera de ti

de cada vez que te toco escrevo um verso
e há mil versos em mim por escrever

às vezes só desejava que fosses uma folha
e toda a tinta do mundo não seria suficiente

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

anyone else but you

You are always trying to keep it real
I'm in love with how you feel
I don't see what anyone can see in anyone else
but you


é que apesar de tudo ainda não estou preparada para deixar esta fase para trás
sabe-me bem ver o dia morrer numa cama contigo
as horas que passamos deitados
e como contamos detalhes acerca de tudo o que fizemos um sem o outro

perder horas no teu corpo
a decorar sinais e cicatrizes
a deixar-te sugar-me a pele até surgirem pisaduras
e depois passar os dias seguintes a tentar escondê-las

amor
amor 
amor

e se não é assim que se faz o tempo parar...
havemos de descobrir como





quinta-feira, 20 de outubro de 2016

— eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

não sei como te explicar que o amor, dentro de mim, te procura

não sei como renuncias à tão descomunal forma como te olho e te reproduzo no vácuo que me angustia e me oprime a azáfama vontade de ser
não sei como te falar sem que através das mãos na tua nuca quando me beijas

no vórtice de silêncio que me dá voz estão contidos todos os intransigentes pactos que por juramento ao corpo prometi não quebrar

e tu olhas, observas taciturno os gestos
(enquanto eu perco horas a memorizar os jeitos)
e analisas, examinas cada passo e movimento
(e eu a perseguir cada rasto que deixas em mim para saciar reminiscências)

somos desconformes e discrepantes no modo como dizemos amor sem utilizar palavras
eu sinto-me indomável e intrépida de alma
mas quando tento que todo o resto de mim to mostre... tudo parece entorpecer e cair num estado de letargia

e então não sei como te dizer
não sei como te mostrar
que tudo em mim te procura


não sei como me fazer sentir com algo transcendente ao meu sublime interior
não sei como me fazer ouvir com algo dissímil da já invulgar forma como te falo


e deixo-me cair
e cair, cair
deixo-me afundar e mergulhar em ti
sempre aos poucos
sempre à espera
que em mim imerjas
que em mim te embrenhes
que em mim te dissolvas tão coesamente
que em mim te craves tão afincadamente

a tal estado
que de mim tudo o que sobre
seja em ti tudo o que faltar
e em ti tudo o que reste
seja o que em mim sempre escasseia
quando vais e o teu absentismo provoca um intenso e profundo sentimento de vazio,
e quando te procuro com cem ideias, (com a pureza, o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor)
sem nunca te saber dizer como


(em correlação com o poema Tríptico, de Herberto Helder)