sexta-feira, 6 de novembro de 2015

plain Lo



ali está ele. ainda esta semana pensei nele. aquele senhor. quase meu avô. costumava levar o neto no autocarro, pela mão. aqueles olhos dóceis e suaves, os cabelos cinzentos a tomar lugar dos loiros. se ele estivesse dentro do autocarro eu dizia alguma coisa. será que ele sabe que tem uma mulher com idade para ser sua neta completamente doida por ele? que se lhe corta a respiração sempre que o vê? o verdadeiro charme é ele quem o tem. hoje, meses depois... de cigarro na mão, na esquina. com mais três, provavelmente da idade dele, mas muito mais velhos. que terno.

eu podia ter um caso com ele. aposto que tem mulher, aposto que é casado. eu devo ser mais nova do que os filhos dele.

ainda esta semana me chamaram de catraia e eu a pensar neste senhor desta forma faz-me sentir uma Lolita, numa versão invertida, perversa até.
mas gostava de lhe tocar as rugas das mãos. gostava de lhe beijar o peito.


Nighthaws, de Edward Hopper. A preto e branco, porque sim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

what happened here

finalmente


foste

mal disseste adeus

simplesmente foste
com as tuas atitudes de retorno ao passado
eu retornei ao meu estado de não te querer mais
e não posso garantir que não voltarás,
mas estás bem longe

e


serás sempre o meu unfinished business
se calhar digo melhor:
my unfinished lover

de todas as formas que te amei silenciosamente
de todas as formas que a paixão me esgotou o corpo
e de todas as formas em que não existiu forma de me existires

unfinished love(r)

que (feliz ou infelizmente)
não se aguentou o ano

(por mais que eu tenha dito come on)


não me toques mais agora

não me olhes mais
não me queiras sequer

mantém-te fora da irrealidade que vivemos para sempre

o meu estado ainda é frágil,
ainda quebra com o toque

fica só longe como estás
não voltes mais

pelo menos para não ficar



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

beyond the sea

beijámos com Sinatra como fundo

a noite embalou a música e o ambiente deixou-se cair
ficaste com os olhos escuros devido à dilatação das pupilas
eu molhava os lábios com a língua enquanto ela te chamava

a tua febre acalentava as minhas pressas
as tuas mãos relaxavam-me o corpo
e beijámos até o mar recuar

no vento lunar aceleravas e eu
sorria estupidamente sem conseguir desfazer as rugas de expressão
enquanto me davas a mão entre reduções de mudanças

despedi-me nas gotas de chuva e
arranquei deixando as folhas outonais para trás
liguei o rádio e deixei que a noite se prolongasse em mim

até hoje