quinta-feira, 20 de outubro de 2016

— eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

não sei como te explicar que o amor, dentro de mim, te procura

não sei como renuncias à tão descomunal forma como te olho e te reproduzo no vácuo que me angustia e me oprime a azáfama vontade de ser
não sei como te falar sem que através das mãos na tua nuca quando me beijas

no vórtice de silêncio que me dá voz estão contidos todos os intransigentes pactos que por juramento ao corpo prometi não quebrar

e tu olhas, observas taciturno os gestos
(enquanto eu perco horas a memorizar os jeitos)
e analisas, examinas cada passo e movimento
(e eu a perseguir cada rasto que deixas em mim para saciar reminiscências)

somos desconformes e discrepantes no modo como dizemos amor sem utilizar palavras
eu sinto-me indomável e intrépida de alma
mas quando tento que todo o resto de mim to mostre... tudo parece entorpecer e cair num estado de letargia

e então não sei como te dizer
não sei como te mostrar
que tudo em mim te procura


não sei como me fazer sentir com algo transcendente ao meu sublime interior
não sei como me fazer ouvir com algo dissímil da já invulgar forma como te falo


e deixo-me cair
e cair, cair
deixo-me afundar e mergulhar em ti
sempre aos poucos
sempre à espera
que em mim imerjas
que em mim te embrenhes
que em mim te dissolvas tão coesamente
que em mim te craves tão afincadamente

a tal estado
que de mim tudo o que sobre
seja em ti tudo o que faltar
e em ti tudo o que reste
seja o que em mim sempre escasseia
quando vais e o teu absentismo provoca um intenso e profundo sentimento de vazio,
e quando te procuro com cem ideias, (com a pureza, o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor)
sem nunca te saber dizer como


(em correlação com o poema Tríptico, de Herberto Helder)



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

I never never want to go home

não tenho onde ir buscar mais força para te agarrar com tanta intensidade
a tua pele agora tão minha, onde adormeço, extenuada
se não passo a noite contigo, trago-te no meu corpo e quando fecho os olhos as minhas mãos emanam o teu cheiro e permaneço nessa ilusão de presença

tenho-te finalmente em mim
chegaste por inteiro de repente
        tanto tempo depois
e no entanto em todos os momentos que te esperei soube
toda a antecipação fermentada
nada te podia tirar de mim

e como dizes

nada acontece por acaso

e como eu te digo

passámos por tudo até darmos um com o outro

e, sinceramente, por tudo outra vez desde aí.

-

agora perco horas a tropeçar em ti
nunca andar de joelhos e mãos esfoladas me deu tanto gozo
porque és tu quem me beija a pele rasgada
e eu ando sempre eufórica a pensar nas quedas

escrever poemas é tocar-te e não querer largar
e agora é diretamente em ti que os deposito

nada me tira deste constante estado de torpor concentrado na coerência das nossas existências.








domingo, 7 de agosto de 2016

close your eyes, it's like I never left you

deixaste a forma do teu corpo nos lençóis e quando me voltei a deitar ainda estavam molhados
o teu perfume hipnotizou-me em sonhos

a palma das minhas mãos ainda me sabe a ti
não me lembro de adormecer, mas sei que foi com a tua voz no meu ouvido

já tinha esquecido de como beijas
e de como o orgasmo sabe melhor enquanto gemes num sussurro para mim

o mais provável é que não tenhamos sido feitos um para o outro, que nunca consigamos compreender completamente todas as palavras que trocamos, que estejamos sempre com os nossos passos descoordenados
mas

o teu corpo fala a mesma língua que a que uso para te percorrer o peito
e quando nos juntamos numa coreografia de ritmos sabemos cada movimento intrinsecamente
despidos chegamos ao exponente máximo do toque

nunca te cheguei a esquecer
e pouco tentei


ecstasy


nunca será suficiente
e terás sempre de ficar mais uma noite
mais uma tentativa

falhar só nos aproxima

és a droga
a reabilitação

as minhas veias dilatam

traz-te para mim