quinta-feira, 8 de setembro de 2016

I never never want to go home

não tenho onde ir buscar mais força para te agarrar com tanta intensidade
a tua pele agora tão minha, onde adormeço, extenuada
se não passo a noite contigo, trago-te no meu corpo e quando fecho os olhos as minhas mãos emanam o teu cheiro e permaneço nessa ilusão de presença

tenho-te finalmente em mim
chegaste por inteiro de repente
        tanto tempo depois
e no entanto em todos os momentos que te esperei soube
toda a antecipação fermentada
nada te podia tirar de mim

e como dizes

nada acontece por acaso

e como eu te digo

passámos por tudo até darmos um com o outro

e, sinceramente, por tudo outra vez desde aí.

-

agora perco horas a tropeçar em ti
nunca andar de joelhos e mãos esfoladas me deu tanto gozo
porque és tu quem me beija a pele rasgada
e eu ando sempre eufórica a pensar nas quedas

escrever poemas é tocar-te e não querer largar
e agora é diretamente em ti que os deposito

nada me tira deste constante estado de torpor concentrado na coerência das nossas existências.








domingo, 7 de agosto de 2016

close your eyes, it's like I never left you

deixaste a forma do teu corpo nos lençóis e quando me voltei a deitar ainda estavam molhados
o teu perfume hipnotizou-me em sonhos

a palma das minhas mãos ainda me sabe a ti
não me lembro de adormecer, mas sei que foi com a tua voz no meu ouvido

já tinha esquecido de como beijas
e de como o orgasmo sabe melhor enquanto gemes num sussurro para mim

o mais provável é que não tenhamos sido feitos um para o outro, que nunca consigamos compreender completamente todas as palavras que trocamos, que estejamos sempre com os nossos passos descoordenados
mas

o teu corpo fala a mesma língua que a que uso para te percorrer o peito
e quando nos juntamos numa coreografia de ritmos sabemos cada movimento intrinsecamente
despidos chegamos ao exponente máximo do toque

nunca te cheguei a esquecer
e pouco tentei


ecstasy


nunca será suficiente
e terás sempre de ficar mais uma noite
mais uma tentativa

falhar só nos aproxima

és a droga
a reabilitação

as minhas veias dilatam

traz-te para mim


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

way down we go

em todo o asfalto por onde rastejámos
por todo o céu de trovoada lá fora

levei-te no álcool que me enchia o copo, na luz que me entorpecia a visão
guardei a lingerie branca durante meses na gaveta e só agora me sinto impura o suficiente para a utilizar

ele quase me parte os ossos de cada vez que me toca
com a mesma força que eu continha quando te tocava a ti
e descarrega em mim a mesma energia incontrolada que eu reprimia antes

já beijou mais do meu corpo
já me teve da forma que eu nunca te consegui dar

mas só as tuas mãos sabem o caminho
só a tua pele queima na minha
e ainda és o único capaz de me fazer sufocar sem medo

contudo

(porque há sempre um "no entanto")

a forma como eu desaparecia à tua volta
como me sentia anulada pela tua presença
como deixava de me ver num espelho onde duas pessoas posavam


onde respirar já implicava premeditação

esperar destruiu-me
- destruiu-nos -

tudo porque nunca chegaste como te esperei

e eu cada vez menos chego onde tu me esperas


e nenhum de nós entende

-

não esperamos nada