domingo, 13 de março de 2016

the love you (don't) feel when you're holding me

só me amas quando me embriagas com sono e violência. a tua força diz-me sempre quando me queres. a noite ressoa os vidros da tua janela e o teu corpo aquece-me quando me encaixas em ti como se eu não me ajustasse em mais lado nenhum e me agarras por dentro da roupa. só quando me beijas é que sinto ter permissão para me entregar a ti como quero sempre. permites que te beije os ombros, te passe a mão pela nuca lentamente, posso deitar a cabeça no teu peito e sussurrar-te ao ouvido. apertas-me nos teus braços e eu deixo de me sentir vazia. quero ficar dentro do teu abraço e não deixar que amanheça dentro do teu quarto. adormeces-me enquanto me beijas a testa e eu encosto os lábios ao teu pescoço e penso na efemeridade daquele momento. quando me mexo sinto-te agarrar-me mais, dizes que não me deixas ir, mas eu acabo por sair de ti. e é quando te beijo a testa que sei que vou ter de viver novamente das memórias destes encontros fugazes na escuridão, com os meus dedos por entre os teus cabelos, quando te digo que descanses e que vou embora, começo a tentar encarar a realidade de não te ter por inteiro. fecho a porta atrás de mim e os olhos à frente, respiro o ar da manhã e conto os dias e dias que passam até que anoiteça outra vez.



domingo, 6 de março de 2016

temptation

todas as superfícies me pedem que deixe a minha anca sentir o frio da pedra
a minha voz passa a falar com volume e rouquidão de súplica

fode-me

olhar para ti pelo canto dos olhos e passar a língua pelos cantos da boca

dá-me de beber

os meus dedos a querer percorrer-te o peito e agarrar-te pulsante e ansioso

vem-te em mim



hoje fiquei a ver-me refletida no vidro preto enquanto chupava guloseimas, a minha língua a entrelaçar, recuar, doce e vermelha. os meus lábios a moldarem-se e sugar o açúcar, sedentos e rasgados.
quis que estivesses do outro lado, que partisses os vidros, me agarrasses pelos cabelos enquanto eu cortava os joelhos nos cristais do chão, com as minhas unhas a agarrarem-te pelas coxas, a minha boca a substituir o doce pelo salgado.

ontem adormeci a sentir-te atirar-me contra a parede, a apertar-me o pescoço enquanto me sussurravas ao ouvido que me querias espancar, a puxar-me com a mão esquerda para cada vez mais dentro de ti. eu gemia como resposta, e sorria em provocação, pedia com os olhos que me deixasses nódoas negras em todos os sítios por onde querias passar com a boca, que marcasses com os dentes todos os pedaços de mim que te parecessem demasiado puros.





quinta-feira, 3 de março de 2016

antídoto

quando esta água que nos corrói a pele aos poucos e nos leva as camadas outrora decoradas por lábios alheios nos afunda e entra pela minha boca em bolhas incessantes, eu fecho os olhos e ouço a música embaciada pelas paredes. em cima de mim apenas um teto branco e húmido, e eu sentada neste banco de inox deixo que a minha nuca recoste. os poros estão abertos e a água embala-me deixando dentro das minhas pálpebras apenas uma visão quimérica que por alguns eternos segundos chega a ser real. nas gotas que me molham os lábios a tua língua toma lugar e no toque ocasional que resulta de um roçar temido e contido do meu tornozelo nas tuas coxas agarras-me com os teus dedos grossos e massajas-me os músculos. só nos meus cabelos molhados repousa uma réstia de sanidade que se solta contra as ondas forçadas e se molda ao meu desejo inocente de concretização. olho para ti depois de abrir os olhos e o cloro que nas minhas pestanas se instala escorre até ao interior da minha boca. saboreio cada lágrima ádvena como a saliva do teu palato, desvio o olhar para a luz que na água quente se tonaliza de azul néon, solto um suspiro de permanente desejo, inconsequente busca, eterna insatisfação.

tenho medo de soltar a mão do ferro metalizado à qual a fundi, medo de cair na água sobre a qual flutuo, afogar-me se deixar o corpo chegar à superfície. o meu pescoço exterioriza o ritmo da minha pulsação amenizada, mergulho pelo ar acima e sufoco com o oxigénio que te alimenta, com a concentração de pureza que lhe falta. a atmosfera pesa com todo o silêncio que lançamos com a nossa respiração ofegantemente controlada, a gravidade empurra-me para cima e não te arrasta para mim, a voz com que me falas soa a desconhecido e só o meu corpo consegue transpor a fronteira entre nós, na minha pele escamosa a tua boca é alga venenosa. o teu veneno é cura. a cura é ar. o ar é não respirar.