segunda-feira, 4 de abril de 2016

desespero como luz, silêncio de trovão

entoas como pés despidos em rocha quente
a tua pele como folha de papel amarelecido
olhar de lusco-fusco
toque de pó embalado no ar
beijas como corte de vidro partido
dormes a sedativo de sublime
pisas a água sem afundar
bebes o oxigénio sem respirar
sangue leve e incolor
pestanas de raiz solta
dedos de ossos negros
tendões sem elásticos
impressões digitais sem terminações nervosas
olhos sem abismo de íris
medula sem espinal
ventrículos afogados no vazio
anatomia de alma transcendente
corpo como tiro de raspão
cicatriz de sombra corrosiva
músculos intumescentes
voz como pressão nos ouvidos
traqueia de degraus para falanges
língua como tentáculo de alforreca
existência de areia
arrebatamento de guerra
apego de cólera
amor de fúria




autumn leaves

ainda aguardo os teus lábios no meu pescoço como possuidores da (re)solução de um enigma. observo-me ao espelho e encontro os hematomas nos braços, os dentes nas nádegas, manchas que secaram na minha pele.
isolo-me debaixo dos lençóis, sozinha e no escuro, molho a minha cama com a ideia de estes dedos serem os teus.

vejo-me descalça, a correr escadas acima numa tarde de sol, fechar a porta do teu quarto atrás de mim. ouço Chet Baker com Ruth Young na minha cabeça, de olhos fechados e os teus braços a chegar para me envolverem. de costas para ti, volto-me, como sempre o faço, e olho-te minúscula e curiosa. provo-te como se fosse a primeira vez, como se fosse a última

como se acordar fosse acabar


dou tudo o que não tenho e continuo a criar em mim mais do que não há de ficar

para ti


domingo, 3 de abril de 2016

another dream

fumamos cigarros na tua varanda durante a madrugada. partilhamos a chama de um isqueiro. observas-me inalar tabaco e expulsá-lo sob a forma de fumo para a noite.
adormeço debaixo do teu braço, acordo apenas para te beijar com a naturalidade do hábito que ainda não nos pertence. acordo com sede de ti, com fome de veneno, com a textura do teu corpo ao alcance do meu toque, a tua pele friccionada pelos meus lábios. o teu desejo materializa-se nas minhas mãos e a minha língua limpa-o de entre os dedos com veemência.
volto a adormecer com a cara pousada no teu peito, com os teus braços a tomar-me, completa.
com o beijo que me dás quando te deixo
com o olhar que me lanças quando te falo ao ouvido
com a forma da tua boca quando abre para gemer
na transpiração que a cama absorve e me dá arrepios

estás na essência de tudo

dentro da tua cama o universo deixa de ser mistério, desaparece e expande-se constantemente, concentra-se nas minhas sinapses e permite-me entender o verdadeiro significado de cosmos.